14 vezes no Hospital
15 de outubro de 2015, a conclusão de um hemograma
que ninguém quer escutar. Anemia grave. Segundo a médica, cheguei "no
laço". Prefiro a metáfora "Cheguei nos 46 do segundo tempo"! (amo
metáfora e futebol).
Sim! Já estou nos "acréscimos". E pensei; "Se me foi
permitido esses acréscimos, creio que o tratamento recuperará meu sangue!"
O tratamento: medicamento via oral por 45 dias e intravenoso por 7 dias,
2 vezes ao dia, me fará ir ao hospital por 14 vezes injetar substância a base
de ferro diluída em 250ml de soro fisiológico por ampola do medicamento.
Minha reação foi otimista, apesar de sair do consultório com um pouco de
medo, me recordando a cada cinco minutos da cara de espanto da enfermeira e da
médica ao ler o resultado do meu hemograma.
Mas, vamos ao reframe! Coaching é foco no positivo! Afinal,
é o que ensino! As ferramentas do coaching!
Chegou a hora de isolar todo o cenário negativo dessa situação e
enquadrar somente o positivo.
Mas o que há de positivo em uma enfermidade? É o que veremos.
Entrar num hospital é algo para mim que se pudesse passar adiante como
num jogo, com certeza faria. Mas não era um jogo, era a minha vida, então vamos
lá para a primeira aplicação de 14!
Não precisa ser nenhum especialista em gestão de pessoas para
identificar o clima organizacional de um hospital. De cara a hostilidade da
recepcionista somada a loucura diária que é a movimentação de um lugar
daqueles, nota-se então, o desiquilíbrio emocional de muitos, para não dizer de
todos. Percebível que os mais desequilibrados emocionalmente, são justamente
aqueles que deveriam oferecer um equilíbrio emocional constante para os que
chegam desesperados de dor.
Conclusões a parte, o tempo que fiquei no hospital, entre esperas e
aplicações, foi para mim uma experiência incrível. Aproveitei cada momento.
Quando estava sozinha na observação feminina, ficava pensando, sonhando,
planejando, orando. Mas isso era raro, porque sempre entravam mulheres para
preencher os leitos.
Sendo assim, vamos socializar e conhecer minhas companheiras de quarto!
Eu geralmente começava o papo só para descontrair, mas quando me dava
conta, elas já estavam confidenciando seus segredos e traumas.
Foram algumas sessões de coaching informal, na intenção de amenizar a
dor daquelas mulheres tão guerreiras e sofridas ao mesmo tempo.
Histórias diversas. De mulher que quase perdeu o filho ao nascer, por
negligência médica, por se tratar de previdência social. Não mataram seu bebê,
mas quebraram seu bracinho direito. Ela veio para casa sem o filho que ficou na
U.T.I neonatal para recuperar um osso que acabara de se formar !
A outra confidenciou a tristeza e o trauma de uma separação onde teve
que deixar uma filha de 4 anos com o pai e trazer para Santa Catarina a outra
de 14 anos. Mas com esperanças de que tão logo se instalasse com dignidade,
buscaria a filha. O que acabou não acontecendo, porque o pai entrou na justiça
alegando abandono de lar e de incapaz. Ela foi até a última instância para
recuperar a guarda da filha, sem sucesso. A ultima vez que viu sua menina foi
há 3 anos. Hoje ela tem 9. E minha companheira de quarto acredita que sua
filha, a esquecerá.
Tantas histórias, de superação e outras não. Mas na segunda de manhã,
entrei no quarto para mais uma sessão de picadas quando me deparo com uma
mulher de semblante triste. Estava acompanhando a mãe que passara mal de
madrugada. Moradora do município vizinho, começamos a conversar o óbvio para um
quarto só de mulheres, onde só uma mulher, nessas 14 passagens minha pelo
hospital era solteira e sem filhos.
Nosso papo foi sobre partos. Parto normal , cesariana, pontos,
cirurgias.... e ela me contou que teve quatro partos, e depois disse que tinha
3 filhos vivos e 1 morto. Na hora pensei que este tivesse falecido ao nascer.
Mas não!
Ela me contou que perdeu seu filho na enchente de 2008, soterrado pelo
desmoronamento. " Meu Deus, que triste!", pensei. E ela continuou:
"Só que primeiro encontramos minha nora e meu neto de 5 anos. Só
depois de alguns dias meu cunhado encontrou meu filho. Ele foi mais ágil que os
bombeiros!"
Eu fiquei mais estática do que já estava por recomendação da enfermeira.
E perguntei o que já sabia.
- "Perdesses o filho, a nora e o neto?"
Ela disse que sim. Que como ficaram isolados, e graças a DEUS tinha uma
madeireira perto, eles mesmos confeccionaram os caixões.
Me contou que como tinham encontrado a nora abraçada ao filho como quem
quisesse ou pudesse protege-lo da morte, resolveram fazer um caixão maior para
os dois. E os enterraram juntos e abraçados.
E o filho, como ainda não haviam localizado; me disse que no coração
dela ardia uma chama pequena de esperança que ele ainda pudesse estar vivo. Mas
também não aconteceu. Seu cunhado o encontrou soterrado de bruços, sem chance
alguma de lutar contra aquela situação. E dias depois o enterraram ao lado da
esposa e do filho. Segundo a minha companheira de quarto, um menino lindo,
educado, sonhador, de 5 anos.
Ela me disse que a história dela não serve de exemplo pra ninguém porque
ela ainda não superou. Há 7 anos que ela chora todos os dias, e toma calmantes.
Minha coachee se sentenciou. "E agora coach?" Pensei comigo.
Respirei fundo, e finalizei nossa conversa com uma pergunta. Aliás com
três.
-" E os teus outros filhos? E os teus outros netos? E o teu
marido?"
Ela abriu um sorriso e disse, eles são o motivo pelo qual ainda não
desisti de viver. Meus netos são lindos, inteligentes. Minhas filhas ficaram
mais companheiras, e outro filho mais próximo. A família ficou mais unida!
A garrafa do meu soro misturado com ferro acabou. A enfermeira chegou
para me dar alta. Agradeci a oportunidade de aprender mais uma vez. E saí de lá
muito satisfeita. Afinal minha coachee tinha concluído exatamente o oposto da
sua sentença .
A gratidão para mim é um valor que carrego desde sempre. Sou grata a
tudo. A todas as pessoas. As que eu admiro, por aprender com elas como ser , e
as que não admiro , por aprender com elas, como não ser. Todas de alguma forma
me ensinam.Penso que esse sentimento de gratidão, é o que me faz merecedora de
experiências incríveis como essa!
Hoje pela manhã, tomei meu último pico. Continuarei o tratamento via
oral. E tenho certeza que o resultado do novo hemograma será diferente. Será
melhor. Afinal, se DEUS me deu o direito da prorrogação nos 46 do segundo
tempo, é para que eu saia dessa; vitoriosa!
A graça que excede todo entendimento seja convosco.
Dori :)

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