sexta-feira, 26 de agosto de 2016

14 Vezes no Hospital

14 vezes no Hospital



 15 de outubro de 2015, a conclusão de um hemograma que ninguém quer escutar. Anemia grave. Segundo a médica, cheguei "no laço". Prefiro a metáfora "Cheguei nos 46 do segundo tempo"! (amo metáfora e futebol).
Sim! Já estou nos "acréscimos". E pensei; "Se me foi permitido esses acréscimos, creio que o tratamento recuperará meu sangue!"
O tratamento: medicamento via oral por 45 dias e intravenoso por 7 dias, 2 vezes ao dia, me fará ir ao hospital por 14 vezes injetar substância a base de ferro diluída em 250ml de soro fisiológico por ampola do medicamento.
Minha reação foi otimista, apesar de sair do consultório com um pouco de medo, me recordando a cada cinco minutos da cara de espanto da enfermeira e da médica ao ler o resultado do meu hemograma.
Mas, vamos ao reframe! Coaching é foco no positivo! Afinal, é o que ensino! As ferramentas do coaching!
Chegou a hora de isolar todo o cenário negativo dessa situação e enquadrar somente o positivo.
Mas o que há de positivo em uma enfermidade? É o que veremos.
Entrar num hospital é algo para mim que se pudesse passar adiante como num jogo, com certeza faria. Mas não era um jogo, era a minha vida, então vamos lá para a primeira aplicação de 14!
Não precisa ser nenhum especialista em gestão de pessoas para identificar o clima organizacional de um hospital. De cara a hostilidade da recepcionista somada a loucura diária que é a movimentação de um lugar daqueles, nota-se então, o desiquilíbrio emocional de muitos, para não dizer de todos. Percebível que os mais desequilibrados emocionalmente, são justamente aqueles que deveriam oferecer um equilíbrio emocional constante para os que chegam desesperados de dor.
Conclusões a parte, o tempo que fiquei no hospital, entre esperas e aplicações, foi para mim uma experiência incrível. Aproveitei cada momento. Quando estava sozinha na observação feminina, ficava pensando, sonhando, planejando, orando. Mas isso era raro, porque sempre entravam mulheres para preencher os leitos.
Sendo assim, vamos socializar e conhecer minhas companheiras de quarto!
Eu geralmente começava o papo só para descontrair, mas quando me dava conta, elas já estavam confidenciando seus segredos e traumas.
Foram algumas sessões de coaching informal, na intenção de amenizar a dor daquelas mulheres tão guerreiras e sofridas ao mesmo tempo.
Histórias diversas. De mulher que quase perdeu o filho ao nascer, por negligência médica, por se tratar de previdência social. Não mataram seu bebê, mas quebraram seu bracinho direito. Ela veio para casa sem o filho que ficou na U.T.I neonatal para recuperar um osso que acabara de se formar !
A outra confidenciou a tristeza e o trauma de uma separação onde teve que deixar uma filha de 4 anos com o pai e trazer para Santa Catarina a outra de 14 anos. Mas com esperanças de que tão logo se instalasse com dignidade, buscaria a filha. O que acabou não acontecendo, porque o pai entrou na justiça alegando abandono de lar e de incapaz. Ela foi até a última instância para recuperar a guarda da filha, sem sucesso. A ultima vez que viu sua menina foi há 3 anos. Hoje ela tem 9. E minha companheira de quarto acredita que sua filha, a esquecerá.
Tantas histórias, de superação e outras não. Mas na segunda de manhã, entrei no quarto para mais uma sessão de picadas quando me deparo com uma mulher de semblante triste. Estava acompanhando a mãe que passara mal de madrugada. Moradora do município vizinho, começamos a conversar o óbvio para um quarto só de mulheres, onde só uma mulher, nessas 14 passagens minha pelo hospital era solteira e sem filhos.
Nosso papo foi sobre partos. Parto normal , cesariana, pontos, cirurgias.... e ela me contou que teve quatro partos, e depois disse que tinha 3 filhos vivos e 1 morto. Na hora pensei que este tivesse falecido ao nascer. Mas não!
Ela me contou que perdeu seu filho na enchente de 2008, soterrado pelo desmoronamento. " Meu Deus, que triste!", pensei. E ela continuou:
"Só que primeiro encontramos minha nora e meu neto de 5 anos. Só depois de alguns dias meu cunhado encontrou meu filho. Ele foi mais ágil que os bombeiros!"
Eu fiquei mais estática do que já estava por recomendação da enfermeira. E perguntei o que já sabia.
- "Perdesses o filho, a nora e o neto?"
Ela disse que sim. Que como ficaram isolados, e graças a DEUS tinha uma madeireira perto, eles mesmos confeccionaram os caixões.
Me contou que como tinham encontrado a nora abraçada ao filho como quem quisesse ou pudesse protege-lo da morte, resolveram fazer um caixão maior para os dois. E os enterraram juntos e abraçados.
E o filho, como ainda não haviam localizado; me disse que no coração dela ardia uma chama pequena de esperança que ele ainda pudesse estar vivo. Mas também não aconteceu. Seu cunhado o encontrou soterrado de bruços, sem chance alguma de lutar contra aquela situação. E dias depois o enterraram ao lado da esposa e do filho. Segundo a minha companheira de quarto, um menino lindo, educado, sonhador, de 5 anos.
Ela me disse que a história dela não serve de exemplo pra ninguém porque ela ainda não superou. Há 7 anos que ela chora todos os dias, e toma calmantes.
Minha coachee se sentenciou. "E agora coach?" Pensei comigo.
Respirei fundo, e finalizei nossa conversa com uma pergunta. Aliás com três.
-" E os teus outros filhos? E os teus outros netos? E o teu marido?"
Ela abriu um sorriso e disse, eles são o motivo pelo qual ainda não desisti de viver. Meus netos são lindos, inteligentes. Minhas filhas ficaram mais companheiras, e outro filho mais próximo. A família ficou mais unida!
A garrafa do meu soro misturado com ferro acabou. A enfermeira chegou para me dar alta. Agradeci a oportunidade de aprender mais uma vez. E saí de lá muito satisfeita. Afinal minha coachee tinha concluído exatamente o oposto da sua sentença .
A gratidão para mim é um valor que carrego desde sempre. Sou grata a tudo. A todas as pessoas. As que eu admiro, por aprender com elas como ser , e as que não admiro , por aprender com elas, como não ser. Todas de alguma forma me ensinam.Penso que esse sentimento de gratidão, é o que me faz merecedora de experiências incríveis como essa!
Hoje pela manhã, tomei meu último pico. Continuarei o tratamento via oral. E tenho certeza que o resultado do novo hemograma será diferente. Será melhor. Afinal, se DEUS me deu o direito da prorrogação nos 46 do segundo tempo, é para que eu saia dessa; vitoriosa!
A graça que excede todo entendimento seja convosco.
Dori :)




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